sábado, 20 de dezembro de 2008

Carta de Fernanda Young


Para    o   Pequeno     Príncipe

-Nossa, há quanto tempo... Como vão as coisas no seu pequeno planeta? Aqui, no meu, andam imensamente estranhas- muito baobá para pouca flor, se é que você entende meus simbolismos. -Quem sempre fala de você é aquela ex-miss que vivia chorando por sua causa, lembra? Ela me contou de sua amizade com a Raposa.

 

 

-Príncipe, como você é meu amigo de infância, não posso deixar de alertá-lo. Cuidado com a Raposa. Ela parece uma coisa, mais é outra. Faz-se de fofa e é uma cobra, uma chantagista. Quando a conheci,ela disse que não podia conversar comigo, pois não sabia quem eu era. 'A gente só conhece bem as coisas que cativou', ela falou, toda insinuante.

 

 

A Raposa exige a certeza do compromisso, impondo regras à troca afetiva. Veja que coisa infantil. Acha que os outros são responsáveis pela felicidade dela

 

 

Respondi que, se nós duas nos cativássemos, ela ficaria triste quando eu fosse embora. Foi quando saquei que ela queria ter um cacho comigo, pois a Raposa pegou no meu cabelo- eu estava loira na época- e disse tudo bem, porque ela olharia os campos de trigo e lembraria de mim.

 

 

Marcamos um encontro no dia seguinte, às 4. ela me pediu para chegar às 4 em ponto, dessa forma ela ficaria feliz desde as 3 somente por esperar o momento do nosso encontro. Achei estranho, mas pensei que fosse charme. Não era.

 

 

Cheguei 15 minutos atrasada e a Raposa surtou.Falou que nós somos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos. E perguntou para mim, olhando diretamente nos meus olhos, se eu tinha consciência de que 'perder tempo' com o outro é o que faz essa história importante.

 

 

Percebeu o tom de chantagem? Ela joga na cara tudo o que faz em nome do outro. Ela deseja afeto, mas o que como uma responsabilidade de mão única. Porém, também somos responsáveis quando nos deixamos cativar- relacionamentos são vias de mão única.

 

 

Raposa exige certeza do compromisso com hora marcada, impondo regras a troca afetiva. As regras dela, claro, já que ela quer todo afeto a favor de seu bem-estar. Chega a dizer que será feliz porque você virá. Como se a felicidade fosse uma coisa condicionada ao outro, á espera do outro, ao encontro do outro.

 

Veja que coisa infantil. São as crianças que precisam de horários certinhos e de associar suas emoções ás pessoas com que se relacionam. Sentindo prazer ou desprazer diante da ausência ou da presença da mãe ou do pai ou de quem quer que seja. Na criança, ainda não há um universo interior, entendeu? Quando nós crescemos, temos que conseguir ver o mundo através das próprias perspectivas.Enxergar a beleza de um trigal se nos lembrar de ninguém.

 

A Raposa como uma criança assustada, quer que aqueles que a amam estejam com ela na hora em que ela deseja. Achando que eles são 'responsáveis' pela felicidade dela. Ou seja, o outro lhe deve algo por tê-la cativado.

 

Desde esse dia, não falo mais com ela. E aconselho você a fazer o mesmo. Ela não é flor que se cheire.

 

Saudades distantes,

 

-Fernanda         

 


Fernanda Young é escritora, roteiristas e apresentadora de TV

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

C o f f e e




Café, há algo mais sinestésico ?

 

Não é por acaso que esta bebida conquistou os quatro cantos do mundo. O Café é, sem sombra de dúvidas, sinestésico. Me deleito com esta bebida. Seja as quatro   da madrugada depois daquela balada inexplicável ou quando acordo para ir trabalhar. O brasileiro importou aquela famosa expressão americana: “no coffee, no work”. Posso dizer que o brasileiro foi muito além, importou a cultura do café. Isso é mais que justificado quando resgatamos nossa história, e é isso que o café faz, resgata a historia de cada um de nós. Afinal, a maior parte das reminiscências (pelo menos as minhas) são regadas a um bom café. O aroma se confunde com o sabor que se confundo comigo mesmo. Uma profusão de sentimentos. Acredito que quando Eça de Queiros escreveu que Luísa “sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo condizia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!”,ele estava tomando café (risos).  Pois bem, é assim que me sinto quando estou tomando café: em êxtase !!!

 

Mas que prazer é esse que sinto ao tomar café? A ciência possivelmente o explica. No entanto, esta pouco me interessa. A resolução histórica (os meus olhos) se faz mais interessante e prazerosa. Procurando entender o poder que tal bebida exercia sobre mim, descobri que a associação do café e o prazer do convívio social faz referência ao século XIV, na Arábia, onde já existiam casas especializadas. Pois bem, o café é uma fonte inesgotável de prazer. Então quando estiver na confeitaria Colombo, na Starbucks, na cafeteria do seu bairro ou mesmo em casa, me convide pra tomar um bom café. Melhor que um bom café só mesmo as conversas do Café. “Só um hedonista excêntrico encontraria prazer numa xícara de sulfato de cafeína e água quente!” ( risos - Embora eu quase seja um destes ). Então não se esqueça de me convidar para o próximo! Vou tomar uma xícara de café mais tarde. E ai, você me acompanha?


segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

O que é sinestesia?

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 Sinestesia (subs. fem.)

Psicol. Relação subjetiva que se estabelece espontaneamente entre uma percepção e outra que pertença ao domínio de um sentido diferente. "


Algo diferente, ou no mínimo inusitado, ocorreu-me nessa madrugada de terça feira. Eu não estava em lugar algum, seja no quarto onde durmo, seja no apartamento onde moro, seja dentro de mim mesmo. Algo desconexo teria me contaminado. O sono não vinha mais. O texto já era nitidamente confuso. Não dormia. Não escrevia. Não pensava. Mas, para que pensar.... a chuva que caia impossibilitava qualquer pensamento mais requintado ( e eu não o queria ). O momento solicitava simplicidade, pureza. Não era necessário fórmulas complicadas ou cálculos complexos. Afinal, os sentimentos mais ricos são os mais simples. O cheiro da chuva já invadia meu ser ( onde quer que o mesmo estivesse ). Não sentia meus pensamentos. Um caos. Um dilúvio. O silêncio escurece a noite já tão escura. Minhas mãos, gigantes, suam cor de anis. Elas, neste momento, não são minhas. Já não tenho mais o sorriso. Meus olhos dizem que não me pertencem mais. Quisera eu que destes caísse uma lágrima e que nela eu me afogasse. Os sonhos já foram roubados. As lágrimas já me sufocam. Não quero escrever mais nada. O nada não me satisfaz, embora nesse momento o nada seja tudo que tenho. Paro! Estático sinto tocar-me a ferida. É grande e dolorida. Ouço o sangue correndo minhas veias. Cuspu palavras. Quero sangue lavando minh'alma. Quero sol rasgando meu corpo. Rezo. Indigno e cético. Desprovido de crença salvo-me pela crença que não acredito ter.
Sonho. Suo. Sinto. Quisera eu acordar e beber um cálice de utopia.