"Sinestesia (subs. fem.)
Psicol. Relação subjetiva que se estabelece espontaneamente entre uma percepção e outra que pertença ao domínio de um sentido diferente. "
Algo diferente, ou no mínimo inusitado, ocorreu-me nessa madrugada de terça feira. Eu não estava em lugar algum, seja no quarto onde durmo, seja no apartamento onde moro, seja dentro de mim mesmo. Algo desconexo teria me contaminado. O sono não vinha mais. O texto já era nitidamente confuso. Não dormia. Não escrevia. Não pensava. Mas, para que pensar.... a chuva que caia impossibilitava qualquer pensamento mais requintado ( e eu não o queria ). O momento solicitava simplicidade, pureza. Não era necessário fórmulas complicadas ou cálculos complexos. Afinal, os sentimentos mais ricos são os mais simples. O cheiro da chuva já invadia meu ser ( onde quer que o mesmo estivesse ). Não sentia meus pensamentos. Um caos. Um dilúvio. O silêncio escurece a noite já tão escura. Minhas mãos, gigantes, suam cor de anis. Elas, neste momento, não são minhas. Já não tenho mais o sorriso. Meus olhos dizem que não me pertencem mais. Quisera eu que destes caísse uma lágrima e que nela eu me afogasse. Os sonhos já foram roubados. As lágrimas já me sufocam. Não quero escrever mais nada. O nada não me satisfaz, embora nesse momento o nada seja tudo que tenho. Paro! Estático sinto tocar-me a ferida. É grande e dolorida. Ouço o sangue correndo minhas veias. Cuspu palavras. Quero sangue lavando minh'alma. Quero sol rasgando meu corpo. Rezo. Indigno e cético. Desprovido de crença salvo-me pela crença que não acredito ter.
Sonho. Suo. Sinto. Quisera eu acordar e beber um cálice de utopia.
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